Revista Sucesso

Atualizado em 30/01/2018

Estilo de vida

Quatro mulheres e um destino

A história das mineiras Ana, Inês, Dulce e Maria Madalena está profundamente enraizada nas lembranças que guardam de Jaguapitã, no Paraná

Da redação

Com terras muito férteis, propícias ao cultivo de toda espécie de cereais, Jaguapitã, assim como todo o norte do Paraná, atraiu empreendedores e aventureiros corajosos de quase todos os estados brasileiros. E não foi diferente com as famílias Ventura da Silva, Miranda, Ursi e Siqueira. A história de Ana, Inês, Dulce e Maria Madalena está relacionada com a época histórica da colonização do norte do Paraná, diretamente influenciada pela Companhia de Terras do Norte do Paraná.


Em meados de 1937 -  ano em que chegaram as primeiras caravanas na cidade trazendo várias famílias que buscavam novas oportunidades e uma vida melhor para os seus - foi estabelecida a sede do município. Primeiramente, foi constituída como Patrimônio São José dos Bandeirantes, que passou à Colônia de São José dos Bandeirantes e, em 1943, foi elevada à categoria de Vila com a denominação de Jaguapitã. A nova Vila foi instalada no dia 1° de janeiro do ano seguinte e pertencia ainda ao município de Sertanópolis.
À época, a primeira casa comercial em atividade foi aberta por Izaltino Rodrigues, que chegou com a família na primeira caravana. Era um empório comercial de nome Casa Branca. Elevada, então, à categoria de Vila, Jaguapitã ganha a Agência Arrecadadora de Impostos, sendo Silvado de Melo, seu primeiro titular. Desmembrada de Sertanópolis em 1947, Jaguapitã foi constituída município e teve como seu primeiro prefeito eleito Alfredo Baticiato, em novembro daquele mesmo ano.

O brasão de armas foi idealizado por Reinaldo Gonçalves - tio de Raul Armando Siqueira que, posteriormente, casara-se com Maria Madalena - e desenhado por Benedito Ursi, marido de Inês. Benedito era dotado de um indiscutível talento  para o desenho, embora fosse um  autodidata na área. O brasão, formado por um escudo que contém em seu interior ramos de algodão do lado esquerdo e de café do lado direito, lavouras predominantes na época, traz no topo uma jaguatirica em posição de descanso, felino, segundo elas, muito comum nas matas da região naquela época.

Os Venturas da Silva

Em 1938, o trem que saiu de Areado, Minas Gerais, deixou os Ventura da Silva em Assis, interior de São Paulo. Como o destino das cinco famílias era São Roque, seguiram para lá. Vieram o casal José Amâncio da Silva e Maria Ventura da Silva e os filhos; José Ventura da Silva com a família e o sogro, José Franco, que acaba retornando à terra natal em seguida. Em 1942, chegam a Jaguapitã as cinco famílias num único caminhão; mulheres e crianças vieram de ônibus.
Da família de José Amâncio vieram os filhos casados Frederico e Geralda, que já tinham José, o primogênito; e Ana, Boaventura, Maria, Antonio, Inês, Jorge e o caçula, Ezequias.
José Ventura da Silva, que viera na frente, sozinho, para avaliar a região,  chegou primeiramente a São Roque e, alguns meses depois, à Jaguaputã, quando trouxe a esposa, Joaquina Franco da Silva, e os filhos Maria Leonor, Margarida, Mauro e Eva.
Ana, a filha mais velha do casal, veio para Jaguapitã somente aos 14 anos, após o falecimento da avó paterna com a qual ficara morando em Areado. Como Jaguapitã, naquela ocasião, não era ainda uma cidade, não havia prefeito nem padre, Ana casou-se com Celso Miranda, em Cambé, em 1944. Hoje, aos quase 91 anos, mora em Londrina rodeada pelas filhas, netos e bisnetos.
José Ventura da Silva faleceu aos 67 anos, em Cianorte, e Joaquina, aos 72 em Londrina.

Ana da Silva Miranda e Celso Miranda com a madrinha de alianças

 José Ventura da Silva e Joaquina Franco da Silva com Ana Ventura da Silva (mãe de José e sogra de Joaquina), Olímpia Ventura da Silva e Inês Ventura Ruela

Os Mirandas

Em Jaguapitã, eles também chegaram em 1942.  Mas Aristides Alves Miranda e Olívia de Paula Miranda e seus 3 filhos, Dulce, Elias e Maria Madalena e os dois filhos do primeiro casamento de Aristides, Fausto e Celso, moraram antes em Rolândia. Chegando a Jaguapitã, Aristides monta uma espécie de armazém, um secos e molhados. E vendia de tudo: querosene, açúcar, tecidos, mantimentos, bebidas, só não vendia remédios.

Aristides aventurou-se por outras cidades, entre 47 e 50, para ganhar a vida e progredir. Voltou a morar em Jaguapitã e faleceu lá em 1961. Nesta ocasião, com os três filhos mais velhos casados. Dulce, a primeira filha do casal, casou com o então sargento da Polícia Militar, Salvador Spina, em 1951, em Peabiru. Conheceram-se em Jaguapitã em 47. Na década de 50, o tenente Spina foi delegado em várias cidades da Região Norte do Paraná, inclusive em Jaguapitã. Faleceu em 1987, em Rolândia. Maria Madalena conheceu Raul Armando Siqueira em Jaguapitã em 1960. Filho, sobrinho e neto dos pioneiros Raul Domingos Siqueira, pai, Manoel Gonçalves, avô materno, e de Reinaldo Gonçalves, tio, que foi prefeito e esteve à frente de um dos primeiros cartórios da cidade, Raul casou-se com Maria Madalena um ano após se conhecerem e veio a falecer em 1984, em Califórnia.

Viúvas, Dulce e Maria Madalena vieram, em 2004, para Londrina com a mãe, Olívia, onde moram até hoje. Olívia veio a falecer em Londrina, aos 99 anos, em 2010.

Olívia de Paula Miranda e Aristides Alves Miranda.

 

Maria Madalena Miranda Siqueira e Raul Armando Siqueira.

Dulce da Silva Miranda e Salvador Spina

Os Ursis

Constantino Ursi e os filhos Francisco e Benedito fundaram uma das primeiras lojas de tecidos da cidade e, então, pai  e filhos passaram a trabalhar juntos. Benedito, aos 16 anos, iniciou-se como aprendiz de coletor de impostos com Carlos Marcondes, coletor concursado e, em 1951, passando  no concurso   ingressou na, posteriormente fundada, Receita Estadual. Casou-se em 1952 com Inês da Silva Ursi e mudaram-se para Arapongas, onde moraram por três anos, depois para Florestópolis por 14 anos, elegendo-se, inclusive, prefeito da cidade. Em seguida mudaram-se para Cornélio Procópio e, por mais seis anos, em Pato Branco. Vieram para Londrina há 49 anos. Inês continua aqui com os filhos, netos e bisnetos. Benedito faleceu no ano passado.

Festa do casamento de Inês e Benedito Ursi

Benedito e Inês com uma amiga à porta de um estabelecimento público.

Lembranças da guerra

Durante a 2ª Guerra Mundial, elas lembram que faltava de tudo. O pouco que aparecia no mercado compunha uma cota destinada por família, que ficava sob a supervisão do Governo. Como o armazém de Aristides vendia de tudo, ele ficou responsável por distribuir essas cotas para as famílias cadastradas. Mas, como tudo era muito pouco, nem sempre era suficiente para todos e para amenizar algumas necessidades específicas como atender os homens que trabalhavam no sítio dos Ventura da Silva, Inês, pequeninha, entrava pelos fundos e Seu Aristides dava a ela uma cota extra, que alimentava esse pessoal da lavoura. Considerado um grande homem, muito respeitado por todos na comunidade, Aristides dava sempre um jeitinho ou aumentando uma cota que não era suficiente para todos na família ou arrumando um pouco mais disso ou daquilo.
Elas contam que tricotavam luvas e meias para mandar para os soldados brasileiros que estavam na guerra. Faziam isso à noite, à luz de lamparinas de querosene.

A vida como ela era

Derrubar árvores e abrir clareira na mata eram tarefas necessárias. O transporte era uma jardineira aberta que levava e trazia gente entre um lugar e outro. Havia muita poeira e tanto fazia ir a cavalo, que muitos utilizavam, ou de jardineira, a poeira era imensa e invadia tudo. A comunicação praticamente não existia na época. Nem rádio, nem jornal, nem televisão. Jornais chegavam com atraso para algumas pessoas na cidade. Celso Miranda, filho de Aristides,  adora notícias, tinha interesse em política, novidades e assuntos gerais. Como não tinha condições de comprar o jornal diário, ele combinou com um vizinho que assinava um jornal nacional e que lhe cedia, todos os dias, a edição do dia anterior. Ele lia de cabo a rabo, reunia a família e os amigos, e contava as notícias que havia lido. Elas lembram também a paixão de Celso pela revista Seleções. Manteve uma coleção imensa anos afora e, com ela, também usava a mesma técnica: lia tudo, reunia irmãos, primos e outros que tinham interesse e contava tudo o que lera e aprendera.
Recordam-se, saudosas, de como a vida era simples e leve, apesar de nem sempre parecer assim. Divertiam-se indo aos parques e circos que vinham de outras cidades e estados por ali trazendo arte e alegria.  Na moda, o linho branco fazia o gosto de todos, mas era caro. Então, muitas roupas nessa época eram feitas de sacos de açúcar alvejados. Como não havia escola pública, um grupo escolar por exemplo, a professora dava aula para todo mundo junto, num galpão, onde guardavam mantimentos.

Maria Ventura da Silva era uma alimentadora de todos e cozinhava como ninguém. Todo mundo que passava por lá comia seu torresminho frito. E Celso, que adorava leite e a família tinha pouca quantidade em casa, passava na dona Maria todo dia, pegava, na janela, a vasilha de leite que ela guardava para ele e tomava como se fosse água.     

 Maria Aparecida Miranda | Editora Sucesso

Jaguapitã, Pioneiras de Londrina, Ana da Silva Miranda, Inês Ursi, Dulce Miranda e Maria Madalena Miranda, Editora Sucesso, Revista Sucesso, Revista Bem-estar
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