Revista Sucesso

Atualizado em 06/10/2017

Qualidade de vida

Pais e filhos, escola e tecnologia

Isabella S.B. Dal Molin faz uma análise do cenário atual e diz que ainda não sabemos exatamente quais influências e consequências poderão advir

Da redação


O celular, enquanto objeto de trabalho e lazer, de manuseio intuitivo e onipresente na vida diária, como o conhecemos hoje, não existe há tanto tempo. Estamos vendo a primeira geração que cresceu com acesso a essa tecnologia. Na primeira infância, a criança está em pleno desenvolvimento, e todo objeto apresentado pelos cuidadores e/ou pais só será utilizado nos limites dos recursos do bebê. Tablets e celulares, por exemplo, funcionarão como fontes de estímulo capazes de tomar a atenção da criança, mas não de substituir a relação com os pais. A idade da criança, quando de seus primeiros contatos com a tecnologia para uso privado, tem relação com a organização social em que está inserida. As exigências de trabalho dos pais, o modo como apresentam o objeto e o uso que fazem dele variam; em razão disso é difícil determinar uma idade exata em que crianças, brasileiras ou não, são apresentadas a essa tecnologia.

Ao falar sobre a criança e o modo como ela pode aproveitar a tecnologia, não podemos deixar de fora termos como a “brincadeira” e o “brincar”. Existem tipos diferentes de brincadeiras. Algumas são solitárias, outras demandam muito a interação social. Brincar sozinho, ou desenvolver maneiras de estar sozinho, é fundamental para a vida, como vemos quando nos dedicamos atentamente a uma determinada tarefa ou quando, no lazer, podemos fazer algo que não demanda outras pessoas. Para isso, entretanto, é necessário um relacionamento confiável com um cuidador atento.

A geração que cresceu com o Iphone tem hoje dez anos e é tão ativa quanto as anteriores. Os problemas ocorrem quando os objetos não são incluídos exatamente como brinquedos, mas como distrações que poderiam encobrir a percepção da criança de que seus pais não estão ali. O problema tende a aparecer se os pais acreditam que sua ausência é suplantada pelo objeto, e que não precisam se dedicar à construção de uma relação confiável com os filhos.

Os pais podem ensinar a criança a brincar com celulares e tablets da mesma forma que foram ensinados a brincar com outras coisas. O fundamental não é o objeto, mas como seu uso e o prazer que ele pode trazer é transmitido entre as gerações, e como o brincar cria um espaço de potencial criativo, que pode ser transformado e transferido para outras situações. Os pais podem realizar um uso adequado desses aparelhos na presença de seus filhos, evitando situações em que a criança sinta que os pais preferem a interação por meio do objeto ao invés da interação presencial. Há o risco de não só imitarem esse uso, mas passarem a considerá-lo como melhor e mais adequado. Cria-se um distanciamento que pode prejudicar o estabelecimento de relações genuínas.

Também encontramos o uso da tecnologia em escolas que têm usado plataformas digitais, como o Google for Education, nos meios digitais de aprendizagem, como as videoaulas, laboratórios virtuais, redes sociais e aplicativos para a participação dos pais e familiares no dia a dia escolar. Esses e outros instrumentos podem possibilitar novas experiências a partir do encontro da tecnologia e da educação. A tecnologia dentro da sala de aula gera alguns benefícios, mas também desafios para os professores, para os alunos e para os pais. O importante é que seja feito um bom e equilibrado uso desses instrumentos e ferramentas, levando em conta que a experiência poderosa e imediata da interação com o outro, pais ou professores, não é substituída, ao menos não sem prejuízo, pelos meios digitais. A tecnologia abre a porta para um horizonte amplo e fascinante, mas, quando se está sozinho, é muito mais tranquilizador saber que se pode contar com alguém real que está próximo. É nessa solidão supervisionada por alguém real que desenvolvemos a capacidade de, caso seja nosso desejo, brincarmos ou aprendermos sozinhos – com ou sem um celular na mão.

Diante dessa nova realidade na relação entre pais e filhos, e entre escola e tecnologia, ainda não há certeza sobre quais consequências observaremos no futuro. O que sabemos é que algumas coisas mudam, outras permanecem iguais, e muitas precisam ser reinventadas.


Psicanalista e Psicóloga Isabella Silva Borghesi Dal Molin
CRP08/13071

Pais e filhos, tecnologia, digital, Isabella Silva Borghesi Dal Molin, Psicanalista, Psicóloga, Editora Sucesso, Revista Sucesso, Revista Bem-estar
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