Revista Sucesso

Atualizado em 07/11/2016

Educação

O perfil do jovem atual enquanto leitor

Escritora Cléo Busatto comenta a importância do contato com a literatura desde a infância

Da redação

Dizer que o adolescente não tem interesse pela leitura não cola mais. Na opinião da escritora Cléo Busatto, esse cenário do jovem enquanto leitor começou a mudar em 1997, com a chegada da série Harry Potter às livrarias. “De lá para cá, foram milhões de livros vendidos, não só desta série como de outras, eliminando totalmente a frase-chavão que vínhamos repetindo, ‘o jovem não lê’.” Mestre em teoria literária pela Universidade Federal de Santa Catarina, Cléo é autora de 22 obras, entre literatura para crianças, teóricos sobre oralidade e CDs de literatura narrada. “O jovem lê aquilo que lhe interessa e aqui não entramos no mérito da qualidade literária do que o jovem lê. Atualmente, só para falar do mercado literário no Brasil, o segmento de livros infantil e juvenil é o que mais vende”, complementa.
Por outro lado, a escritora lembra que o desafio, agora, é outro e a pergunta deveria ser: como e o que fazer para que o jovem se interesse por uma literatura que promova a reflexão, o diálogo interior, a contemplação, e não apenas por uma literatura facilmente digerida, que não transgride nem provoca transformações na sua forma de ser e ver o mundo? Cléo explica que a linguagem literária, como outras linguagens artísticas, está sujeita à demanda do mercado consumidor, que não está preocupado com a qualidade destas produções, mas com seu potencial de venda. “Sabemos que para vender muito, a obra deve atender o gosto comum, que não é pautado pelo valor artístico, mas sim pela publicidade que se faz em torno de um livro, por exemplo.”

Caminhos que levam ao livro

Formar jovens leitores, críticos e criativos implica em lhes oferecer obras de reconhecida qualidade literária, livros que, além de entreter, possam educar. Cléo Busatto acredita que o melhor incentivo para disseminar a leitura literária entre os jovens é lhes oferecer boas histórias, narrativas poderosas. “Ler para outro em voz alta é uma técnica que sempre funciona – desde que o leitor saiba se expressar bem. O jovem pode descobrir o prazer da leitura, ao perceber que aquela história lhe diz algo importante, desperta algum sentimento e lhe faz pensar naquilo que leu.”

Cléo defende que são muitos os caminhos que levam ao livro, porém um lar com pais leitores já é meio caminho andado para se formar um bom leitor. “Uma escola que promove a leitura literária pelo seu valor simbólico, e não com apelo pedagógico, vai formar leitor, sem dúvida.” Infelizmente, a escritora lembra que ainda é pequeno o acesso da escola pública ao livro literário. “Praticamente limitam-se às distribuições de livros pelo governo federal e, em algumas situações, estadual. Mas não adianta a escola receber o livro, se ele continuar fechado nas prateleiras da biblioteca. Uma obra literária só se efetiva no momento em que é lida. As escolas, de uma maneira em geral, ainda estão despreparadas para apresentar o livro ao aluno e incentivar a sua leitura.”

Cléo defende que, para conquistar os jovens, uma boa história deve apresentar uma narrativa envolvente, daquelas que não largam o leitor. “Ela deve ter pontos de identificação com a linguagem do jovem, instigar, provocar, apresentar conflitos e dúvidas, que são elementos que caracterizam a adolescência. Creio que uma narrativa que traz a fantasia como fio condutor e que favorece o autoconhecimento e o conhecimento do mundo sempre é bem-vinda.”

Ontem e hoje

A escritora lembra que, há quinze anos, a internet não fazia parte da vida dos adolescentes como agora. Não havia redes sociais como ponto de ligação entre eles. Para Cléo, essas diferenças se situam no aspecto externo do sujeito leitor e devem ser levadas em conta por quem escreve para esse público. “Já a semelhança está em tudo que é inerente à estação adolescência. O sujeito humano não mudou. A dúvida, a coragem, a ousadia e os desafios que são marcantes nesta fase da vida permanecem os mesmos”, afirma.

A Fofa do Terceiro Andar
Em sua obra mais recente, lançada em junho deste ano, Cléo Busatto promove uma espécie de escrita de iniciação, uma conversa íntima, através da qual a personagem central, Ana, vai se vendo e lendo o mundo a sua volta, descortinando-se da ignorância e dos preconceitos.
Embora traga à tona a necessária discussão acerca do bullying, A Fofa do Terceiro Andar vai muito além disso, como explica a autora. “A ideia era contar uma história de amor por si própria, em que a personagem assume uma transformação e cresce a partir dela. Escolhi Ana, uma adolescente perseguida e alvo de gozação dos colegas, pela sua condição de garota acima do peso, introspectiva e de poucos amigos.” Cléo conta que, à medida que a personagem ia tomando corpo, a escrita avançava e ela a deixou ser aquilo que era: com seus medos, dúvidas, alegrias, descobertas. “Durante a escritura eu fui revendo a minha própria adolescente e entendi melhor a personagem. Resolvi oferecer a ela aquilo que eu já havia conquistado, ao ressignificar a minha história. Eu transformei rejeições e sentimentos que provocaram tristeza em sentimentos positivos. Ana também.”

Para a escritora, autoestima é a grande descoberta da personagem, que vem da condição de aceitar aquilo que se é. “Num determinado momento, ela resolveu que ninguém mais iria rir dela. Ela riria antes de qualquer um. Perderia todos os quilos que entalavam na sua garganta. Foi a grande virada da personagem e do romance.” Na trama, a personagem conta com o apoio da mãe, uma pessoa equilibrada emocionalmente e um porto seguro para a filha. “Acho importante que os pais leiam seus filhos. Percebam quando eles precisam ficar sós e quando precisam conversar.” A personagem também conhece Francisco, um garoto que não é como os outros, pois enxerga o mundo de forma diferente e ensina Ana a fazer o mesmo.

Ao afirmar ser possível se transformar e transmutar aquilo que não nos faz bem, A Fofa do Terceiro Andar pode ser uma grande amiga do adolescente. “O livro ajuda a combater o preconceito, porque penetra profundamente na alma da menina e tem um estilo ideal, tanto para um leitor da faixa etária da personagem, quanto para uma pessoa adulta que já tenha passado por essa fase da vida.” Cléo vê a adolescência como um rito de passagem para a vida adulta, que implica em deixar de lado um mundo onde você é nutrido e protegido, para se nutrir e se proteger. “Isto significa crescer emocionalmente. A adolescência se estende quando não nos assumimos como responsáveis pela nossa vida, e delegamos ao outro esta tarefa, seja ele pai, mãe, professor, namorado e, em algumas situações, até marido e mulher.”

Outras obras da autora

Entre as inúmeras publicações da autora, destacamos algumas: