Revista Sucesso

Atualizado em 18/08/2016

Estilo de vida

O desafio dos homens na sociedade atual

Frente às transformações na relação entre gêneros, homens precisam redescobrir seus papéis, posturas e condutas

Da redação

Historicamente, o homem ocupou uma posição privilegiada construída a partir de uma sociedade patriarcal. Uma posição de ‘superioridade’, sobretudo em relação às mulheres. Com as conquistas feministas, felizmente, esse cenário de desigualdade vem mudando. Todas essas transformações, no entanto, também impõem desafios ao homem atual, que se vê na necessidade de reposicionar-se na sociedade, revendo seus papéis, posturas e condutas para identificar seu novo espaço.

Assim como a mulher, o homem foi ensinado a cumprir o papel que a sociedade esperava dele: não podia demonstrar sensibilidade, ter admiração por plantas, música, poesia ou qualquer outra coisa que colocasse em dúvida sua virilidade; tinha que estar pronto para atacar, para sempre vencer, ser forte e corajoso. Não ter medo, não demostrar fraqueza, não ser impotente com as mulheres, não ter dúvidas e acertar em tudo que fizesse. Segundo a psicóloga especialista em saúde do homem Carla Ribeiro, com isso, o homem passou a ser solitário. “Não tinha uma boa convivência com a mulher e não participava do crescimento dos filhos”. Para a especialista, embora nossa sociedade tenha mudado bastante, ainda há uma certa padronização do que é ser homem. “Desde pequenos, os meninos são testados a provarem sua masculinidade. ‘Isso não é coisa de homem’, ‘Homem não chora’. Para serem masculinos, os machos aprendem, em geral, o que não devem ser, antes de aprenderem o que podem ser”, comenta a psicóloga.

Na avaliação do professor Charles Feldhaus, pós-doutor em filosofia, a relação entre os gêneros tem se modificado significativamente na sociedade nos últimos anos, embora ainda haja muito o que melhorar em relação ao papel da mulher na sociedade atual. Para o professor, não se deve pensar a questão de gênero de forma linear, uma vez que, de forma pontual, mesmo em períodos históricos anteriores, alguns homens já precisavam assumir papéis atribuídos às mulheres. “É o que acontece quando, por exemplo, um homem pobre perde muito cedo a sua esposa e precisa muito rapidamente aprender a cuidar dos filhos e manter a tarefa de garantir a renda da casa. Naturalmente, esses foram casos excepcionais, mas não inexistentes” – pontua – “Acredito que as tarefas ainda são, em parte significativa dos lares, divididas segundo o modelo tradicional de papéis homem e mulher. O problema se torna mais grave quando a mulher, em função de a renda familiar ser baixa, precisa também trabalhar fora e com isso termina por assumir dupla jornada. Sem dúvida já existem vários homens que assumiram ao menos parte dessas tarefas, mas eu não arriscaria afirmar que isso é um contínuo na sociedade”.

Paternidade e família - Para o professor Dr. Charles Feldhaus, o papel mais amplo do pai no que diz respeito à paternidade é uma das principais mudanças e um dos grandes desafios do homem na sociedade atual. “Em países como a Alemanha, existe já faz algum tempo, por exemplo, uma licença de longa duração para permitir um cuidado mais próximo do pai em relação a seus filhos. No Brasil, algo nessa direção já começa ocorrer”, afirma. Para o professor, esse tipo de licença estendida também ao pai pode contribuir para a eliminação de um preconceito implícito no mercado de trabalho, em que se preferia o homem, exatamente porque a mulher, se engravidasse, poderia se ausentar do trabalho, enquanto o homem não apresentava esse risco ao empregador.

“Aqui novamente um ponto a mudar na mentalidade social contemporânea. Pode-se perceber na sociedade atual que as pessoas ainda costumam ficar indignadas quando uma criança é abandonada na rua e essa indignação se dirige quase que exclusivamente à mãe. Mas o que dizer do homem que abandonou essa mulher com a criança, o pai da criança? Ou até mesmo por que não nos indignamos em geral com os pais que sistematicamente ainda abandonam seus filhos? É muito comum quando um casal se separa e o homem constitui nova relação com uma mulher diferente e tem filhos com sua mulher anterior, esse homem dar pouca ou nenhuma atenção aos filhos do primeiro casamento. Novamente isso não ocorre de maneira linear, mas acredito que ainda seja uma tendência”.

Para o professor, a maior presença da mulher no mercado de trabalho, seja por fatores econômicos, seja por fatores culturais, tem levado os homens a repensar os aspectos afetivos como elementos necessários ao bom desenvolvimento do papel de pai exigido pela sociedade atual. “O aumento da afetividade não ocorre apenas no diz respeito à educação dos filhos, mas a própria relação conjugal hoje exige do homem cultivo de traços mais afetivos na manutenção da relação. Eu diria que o ônus de reinventar a relação homem e mulher na relação conjugal é também compartilhado, uma vez que a mulher também às vezes está bastante presa ao modelo tradicional de mulher vinculada à esfera privada. A reconstrução dos papéis é uma tarefa difícil ao homem e à mulher”.

A educação machista recebida pelo pai, e até mesmo pelas mulheres, ainda cria obstáculos à comunicação entre os gêneros, segundo Dr. Feldhaus. “Se o critério é a igualdade, seria adequado que o pai tivesse o mesmo discurso com a filha e o filho. Compete ao homem superar ainda esses bloqueios culturais e visar a um tratamento mais igualitário dos filhos de ambos os sexos”.

Mercado de trabalho - No setor empresarial, as mudanças também são perceptíveis. Segundo Dr. Feldhaus, a fim de não perderem espaço no local de trabalho, os homens têm precisado mostrar características antes consideradas femininas, como estar mais aberto ao que as outras pessoas têm a dizer e trabalhar em equipe. “A visão tradicional do homem como viril e forte geralmente estava vinculada ao indivíduo que consegue resolver tudo sozinho, que não demonstra fraqueza ou ignorância, mas as empresas atuais exigem cada vez mais pessoas capazes de interagir com outras pessoas de maneira mais aberta e com capacidade de motivar o trabalho em grupo”.

Para o consultor empresarial Wellington Moreira, foi a ascensão da mulher que redefiniu o papel dos homens. “Foi uma quebra de paradigmas, um processo disruptivo e, por isso, mais doloroso para os homens”, afirma. Para o profissional, se hoje vemos muita dificuldade nessa transição, é porque falta referência atual. “Nós aprendemos muito por espelhamento. Os homens de hoje têm como modelo aquilo que seus pais cumpriam como sendo ‘papel de homem’, mas esse modelo antigo não serve mais. No mercado de trabalho, uma das dificuldades é que muitas vezes o homem não aceita ser liderado por uma mulher. Há ainda uma série de resistências, o homem dessa geração precisa se adaptar, mas os filhos dessa geração já irão entender isso naturalmente”, afirma.

Segundo o consultor, um dos valores mais característicos dos homens é a competitividade, enquanto que a mulher é mais voltada à cooperação e à interdependência. É por isso, de acordo com Wellington, que muitos homens ainda têm dificuldade em trabalhar em equipe. “Primeiro, o homem precisa se conscientizar de que existem esses papéis. Antes, não havia tanta expectativa das mulheres em relação aos maridos. Bastava que ele provesse o sustento, o resto cabia à mulher. Hoje, não. Consciente disso, o homem precisa reservar tempo para os diferentes papéis. Precisa participar mais das atividades domésticas e isso não é simples para todo mundo”.

Aprender a gerenciar expectativas, para o consultor, é a chave para equilibrar os papéis. “Não dá para ser um profissional, pai e marido 100%. Quando você quer muito exercer bem um dos papéis, acaba ficando em falta em outro. Existe essa cobrança da sociedade para ser bom em tudo. Antes, o homem estava em uma posição confortável, agora não”. A questão central, ele ressalta, é que a reconstrução da identidade do homem ocorra sem a perda da própria.