Revista Sucesso

Atualizado em 18/08/2016

Estilo de vida

EdC: pequenas ações podem mudar o mundo

Movimento nascido há 25 anos, Economia da Comunhão propõe nova forma de pensar a economia, mais fraterna e humana

Da redação


Aureo Cinagawa em reunião  nas  Filipinas  assistida pelo Banco Kabayan, da Economy of Communion


Após visitar o Brasil, em maio de 1991, e percorrer a cidade de São Paulo, Chiara Lubich ficou impressionada com as disparidades sociais que já naquela época formavam um cenário urbano de evidente segregação: luxuosos conglomerados de edifícios contrastando, do outro lado do muro, com grandes extensões de favelas.

Impelida pela urgência em viabilizar uma resposta concreta ao problema social e ao desequilíbrio econômico, a professora italiana lançaria, assim, o movimento Economia de Comunhão (EdC), que propõe uma nova forma de pensar a economia, baseada na cultura do “dar” e do “doar-se”, fazendo valer o princípio de proporcionar a melhoria do bem-estar de todos.

Nascido no Brasil, o EdC tem suas raízes no Movimento dos Focolares – um movimento ecumênico de inspiração cristã-católica baseado no princípio da unidade (“todos somos um”), fundado pela mesma Chiara Lubich há mais de 70 anos – mas cresceu de forma independente e desvinculada do berço religioso. Dirigido inicialmente às empresas, o movimento congrega empresários, empreendedores, profissionais liberais, pesquisadores e todos aqueles interessados em praticar a filosofia vigente e compartilhar experiências. Com a proposta de ser um movimento mundial, atuando nas esferas regionais, nacionais e internacionais, a EdC está presente hoje em cerca de 160 países.

EdC Londrina


empresário Marcelo Cassa das óticas Viso Center

Em Londrina, o EdC existe há pouco mais de um ano e já reúne em torno de 150 membros apoiadores. O empresário Marcelo Cassa, das óticas Viso Center, foi o responsável por trazer o movimento para a cidade e, atualmente, é o vice-presidente da Anpecom (Associação Nacional por uma Economia de Comunhão), entidade que há 10 anos é a responsável pela disseminação do movimento. Cassa revela que seu primeiro contato com a EdC foi em 2011. A partir de então, ele passou a se aprofundar no tema para trazer o movimento para Londrina. Em 2015, após uma visita à África, ele afirma ter voltado com as baterias recarregadas e a fórmula na cabeça. “Senti que já estava preparado para trazer o movimento para cá. Tinha também sido convidado para a diretoria. Hoje, a fórmula de Londrina está sendo oferecida ao Brasil todo.”

Em nível local, o grupo realiza reuniões mensais, sempre em uma das empresas apoiadoras, em que são compartilhadas experiências, ideias e valores. “Esse movimento incentiva o capitalismo consciente, desenvolvendo a consciência através de ferramentas que chamamos de cultura da comunhão. Acreditamos que o modelo atual de capitalismo – sem ética – está fadado a um fim em curto ou médio prazo.

Buscamos aprender um com o outro, para assim potencializar nossas capacidades e promover resultados sociais, econômicos, ambientais. A EdC trabalha com o espírito de fazer com que as pessoas vejam a economia com um olhar mais humano e fraterno”, esclarece Cassa. De acordo com o empresário, os encontros têm como objetivo criar laços e melhorar a qualidade da troca de informações, procurando abordar os valores relacionais dentro das empresas, como confiança, satisfação no trabalho, a forma como ela lida com o público interno e externo e a ética aplicada a questões de gestão.

“Nosso princípio é aprender um com o outro. A mesma comunhão que permite compartilhar permite criticar de forma construtiva, no sentido de buscar a melhora em conjunto e a efetivação desse mundo melhor” – afirma. – “Não é só a melhora interna das empresas, é a melhora das pessoas. E é isso que muda o mundo.” Na concepção de Cassa, quando um empreendedor implanta em sua empresa políticas que vão ao encontro dessa melhora nas relações humanas, ele se torna protagonista nessa construção. “Muitas pessoas, mesmo sem conhecer o movimento, já praticam a economia de comunhão, já estão fazendo sua parte. Mas a experiência de fazer junto traz maior percepção da construção do mundo. Poder compartilhar experiências dentro de um grupo consciente de pessoas motiva mais”, complementa.

Projetos londrinenses


Violinista Roney Marczak com musicos do projeto de musica sol maior

Há cerca de um ano, o projeto social Escola de Música Sol Maior estava a ponto de ser encerrado por dificuldades financeiras. Fundado pelo violinista Roney Marczak, o projeto realiza, há 14 anos, um trabalho social de formação musical voltada a crianças e jovens de baixa renda. Segundo o músico, a EdC foi a responsável por salvar a escola. “Fomos apresentados ao grupo Economia de Comunhão, através do Marcelo Cassa.

Além de toda a ajuda financeira, sou muito grato pelo tempo que eles dedicaram, dividindo suas experiências como empresários, para ajudar a salvar o projeto. A união entre empresários proporcionou à escola um espaço muito mais adequado, 10 vezes maior que o antigo, e por um preço mais próximo do que podemos pagar. Com isso, conseguimos aumentar o quadro de professores, de oito para 17. É um espaço maravilhoso”, afirma Marczak. Atualmente, a escola atende 110 alunos, sendo que 70 são bolsistas, e está localizada no número 499 da Avenida Madre Leônia Milito.

Após esse primeiro contato, Roney conta que se tornou membro e apoiador da EdC. “Eu não sabia, mas já praticava a filosofia EdC. Um dos nossos valores mais fortes é a valorização da família e é essa energia que recebemos do movimento.” Como forma de agradecimento, o músico – junto com o Quarteto Descobertas e convidados – lançou o disco “Alegria de Viver”, que celebra os 25 anos do movimento Economia de Comunhão. Uma das faixas de destaque, composta por Roney, é o Hino EdC 25 anos, que, segundo o violinista, foi composto em um momento de inspiração pela graça recebida. Em maio deste ano, o Hino foi apresentado durante o congresso internacional do movimento EdC, realizado nas Filipinas.

Outro projeto social que se consolidou com o apoio da EdC, através da Clínica Cinagawa, é o Judô para a Vida, da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora de Londrina. Da mobilização empresarial, foram arrecadados kimonos para os alunos, jovens carentes da região de Londrina.

Disseminação


Renata Amano, membro do conselho administrativo da Bratac Fiação de Seda

Em julho deste ano, Renata Amano, membro do conselho administrativo da Bratac Fiação de Seda, participou pela primeira vez de uma reunião do grupo EdC. “Recebemos o convite do gestor do grupo, Marcelo Cassa, que conheceu a cultura da empresa e o trabalho que realizamos internamente”, conta. Fundada na década de 1940, a Bratac é uma empresa 100% brasileira, que tem em suas origens a tradição japonesa enraizada.

“A responsabilidade social é inerente à empresa. Trabalhamos com sericicultura em duas vertentes: no campo e na indústria, o que exige o envolvimento de muitas pessoas em várias etapas da cadeia produtiva. São mais de mil funcionários em regime CLT na fábrica e, no campo, mais de 2,5 mil famílias trabalhando, em uma parceria rural.”

Segundo Renata, sempre foi uma preocupação da empresa cuidar de seus colaboradores e parceiros, desenvolvendo inúmeras atividades nesse sentido. “Os produtores rurais são responsáveis pelo processo de produção do bicho da seda. Nós compramos deles os casulos, que são a matéria-prima da fiação na fábrica. Oferecemos orientação, educação, técnicas de manejo e toda a estrutura necessária sem custo.” No meio urbano, a Bratac procura investir em projetos que beneficiam a comunidade no entorno da fábrica.

“Acreditamos que todos os empresários, dentro de seu setor, têm condições de investir no desenvolvimento social para além da busca de resultados”, complementa Renata, que acredita que toda a credibilidade alcançada pela Bratac seja fruto dessa filosofia. “Ainda estamos nos conhecendo (Bratac e EdC), mas é muito gratificante podermos nos encontrar com empresários com essa visão única de bem-estar social. O grupo existe para unir forças e dividir experiências. São muitos os desafios internos na fábrica. Atuamos em um setor em que 80% dos funcionários são mulheres que são as principais provedoras em suas famílias. Só aí já cabe um trabalho enorme de cunho social. É importante conhecermos outras ideias.”

Em nível internacional


Assistência médica domiciliar no Japão, na cidade de Saku, província de Nagano

Em maio deste ano, foi realizado o primeiro Congresso Pan-Asiático EdC, em Filipinas, Tagaytay (Manila), que contou com participantes do mundo inteiro. O ortopedista Aureo Cinagawa foi um dos representantes da EdC Brasil que estiveram no evento. “Fomos levar a nossa experiência para mostrar como viabilizar ações voltadas ao social no contexto das empresas sem muita necessidade de mudar a estrutura com que se trabalha. Em Londrina, somos um grupo muito ativo, em nível nacional. Buscamos trabalhar de forma a ampliar relações olhando aquilo que já temos, poder contar com o outro para buscar soluções locais. Assim, se constrói a cultura do partilhar, em detrimento da cultura do materialismo que impera hoje. Temos que olhar primeiro para nós mesmos”, afirma o ortopedista, fundador da Clínica Cinagawa.

Além de compartilhar as experiências londrinenses, o grupo brasileiro teve a oportunidade de conhecer o trabalho desenvolvido na Ásia. “No Japão, visitamos assistências médicas domiciliares, que promovem um atendimento mais humanizado. Um exemplo com o qual podemos aprender.” Para o médico, o objetivo concreto do movimento não é o lucro pelo lucro, da forma como conhecemos hoje no mercado, mas sim a busca pelo bem-estar comum, o trabalho sem exploração do outro.

 Aureo Cinagawa com as crianças da periferia

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